PERDOA-ME, POR SER MULHER.

“Mulher pode fazer dez coisas ao mesmo tempo”. E isso é bom? A polivalência feminina, amiga, está comprovada pela Ciência. Mas na prática as mulheres, pelo mesmo trabalho ainda ganham a metade do salário, não é mesmo? Você estava farta. Havia de lutar contra as imperfeições desse mundo.

Seu pai já lhe dizia: “Minha filha, você é mais ambiciosa e audaz do que seus irmãos”. Você era a única mulher entre quatro homens e ele não os deixou te tratar como empregada. Apesar disso, por muito tempo teve que imitá-los para fazer-se respeitar. Ao longo da vida, não precisou pedir o consentimento dos homens presentes, como sua mãe sempre fizera. Entretanto, não raras vezes foi tratada como cachorro… Pois é… o “melhor amigo do homem”.

E naquela época, você se lembra? O hotel foi alagado no seu primeiro dia de trabalho… um infortúnio!  Você só tinha 23 anos, e por ser mulher e mais jovem, não acreditaram que você resolveria o problema, e por isso recebeu todas aquelas agressões por puro preconceito… Aquilo lhe encorajou ainda mais, não foi?

É verdade que o dono daquele outro hotel te assediava?? E se você se casasse com ele? Você disse um sonoro “não”. Você usaria as mãos de outra maneira. Não acreditava no poder “sobre” o trono, tampouco “sob”.

Você não gostava de ficar parada e um hotel é um prato cheio. Anos a fio defrontando com hóspedes mal-intencionados, mal-entendidos entre o staff, mau uso de equipamentos, chefes mal-humorados… uma loucura. Sente-se feliz agora, fazendo o que gosta? Uma profissional realizada, sim. Mas… uma mulher exausta.

Você sabia, desde que nascera, que essa vida lhe exigiria muitos sacrifícios. Quantas vezes, você, para manter a elegância, subiu e desceu os andares do hotel com aquela saia lápis justa e aquele scarpin salto 10?

E se você tirasse um descanso num final de semana ou mesmo fosse ao karaokê do happy hour de sexta-feira? Não! De maneira nenhuma! Você deveria manter a compostura. Você não podia perder tempo ouvindo filosofias de boteco. E agora? Viu só? Você ficou sozinha.

Depois disso, ninguém quis se casar com você. Você vivia no hotel e para o hotel. Estava contente com sua sorte? Sim, exceto por não ter tido filhos… Três meses de licença-maternidade?? Certamente perderia o emprego… Estava amargurada.

O que faria então? Ora, investiria na própria carreira. Com muito sacrifício, formou-se em Turismo, fez pós- graduação em Hotelaria, Gestão de Pessoas, Marketing e Finanças. Enfrentou a hostilidade da maioria masculina nos processos seletivos de grandes redes. E quando conseguiu o cargo de GG ouviu indiretas de uma mulher, veja só, que teria conseguido o cargo por uma “especial ajuda” do diretor. Como?? Não pergunte isso a mim… Você só esperava que uma mulher desse a mão à outra.

Quando você chorou, lhe disseram que esse era o preço do sucesso… É fato que as mulheres são mais sensíveis. E isso lá é um defeito? Durante a pandemia, você rapidamente mudou de rota; você se colocou no lugar de cada recepcionista, camareira, cozinheiro, mensageiro, assistente…; você conseguiu a cooperação entre fornecedores; você não se importou em pedir ajuda.

Parece que ninguém te entendeu. Você não queria competir com os homens, você queria trabalhar em pé de igualdade com eles para unir forças, somar competências e habilidades. Esse sonho de justiça ainda é um ideal muito distante?

Você tem o poder agora, amiga. Você está empoderada. O poder? Sim. Foi por ele que você lutou. Lembre-se de que você pode usá-lo agora.

Autora: Nivia de Oliveira (Todos os direitos reservados).