Ela nunca sorria. Qual era mesmo o nome dela? Donana. Era isso… D. Ana estava sempre com aquele semblante sério, mas não carrancudo. As rugas e os poucos cabelos brancos contribuíam para aquela aparência taciturna. Se pelo menos ela sorrisse…
“O sorriso tem o poder de aliviar o estresse e melhorar o humor”, dizem os especialistas.
– Bom dia… Ela disse quase com um sussurro.
– Boa tarde! Eu respondi.
Ela quase sempre chegava atrasada. Os hóspedes já estavam chegando para o breakfast e preparar o café da manhã era uma de suas funções. Ela era uma espécie de governanta porque, como o hotel era pequeno, ela fazia de tudo um pouco, inclusive limpar os apartamentos e áreas externas, organizar a despensa e o almoxarifado.
Mas era trabalhadeira. Não parava um minuto. E no final da jornada tudo estava a contento e aprontado para o dia seguinte.
Donana não gostava de conversar com ninguém. Nem sequer ria das piadinhas dos colegas. Nos poucos momentos de descanso, ela se mantinha amuada. Macambúzia. Pensando em quê?
Um hóspede chega falante, eu faço o check-in. Donana está limpando a recepção. Concentrada nem percebe a presença dele.
– Já te pedi para cumprimentar os hóspedes, Donana. Quantas vezes vou ter que repetir que é seu DEVER sorrir para eles! Assim dizemos a eles o quanto são bem-vindos!
Com olhos retraídos ela esboçou um sorriso amarelo, quase quadrado e continuou seu trabalho.
– Alguém morreu pra ela estar assim? Perguntou o hóspede com um leve ar emproado, já pegando a mala e se dirigindo à escada rumo ao apartamento.
Foi aí que caiu a ficha: Donana está triste… E foi ali que, emborcada no balcão da recepção eu ouvi a história de uma mulher.
O marido vendia os alimentos e utensílios da casa para comprar cachaça. Todos os dias Donana, antes de ir ao trabalho, tinha que andar três quilômetros a mais para deixar sua filha de nove anos na casa da prima, porque ele molestava a garotinha. Ainda criança, Donana teve que lutar pelo que comer nas ruas. E aos quinze anos de idade tinha sido violentada pelo seu tio, dentro de casa.
– Tem como aprender a sorrir? Essa foi a pergunta dela.
Sai de trás do balcão, aproximei-me e a abracei. Ela ainda com os braços retidos ao lado do corpo, levantou a cabeça… Seus olhos murchos procuravam respostas nos meus.
– Você acabou de me ensinar! Isso foi o que eu consegui dizer.
Autora: Nivia de Oliveira (Todos os direitos reservados).